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Por que temos medo da inovação?

Nem a invenção da imprensa, por Gutemberg, mudou tanto o livro quanto promete o e-reader, aparelho para ler livros no formato digital. Desta vez, a inovação não é apenas uma questão de escala e acessibilidade (coisa que a tipografia já fez, deixando “desempregados” muitos monges copiadores naquele finalzinho da Idade Média). Esse novo livro (ou seriam livros?) tira de cena o papel! E, parece claro que, apesar da onda nostálgica que toda inovação traz, todo mundo logo vai se adaptar. OK, há até hoje quem não abra mão da máquina de escrever ou só pague contas na agência bancária, mas são espécies em extinção e não há Ibama que resolva.

Problemas como maleabilidade, peso, possibilidade de voltar facilmente as páginas, fazer anotações, já estão sendo resolvidas. Há, no entanto, outros tipos de relações mantidas com os livros que ainda carecem de solução (não estamos dizendo que elas não virão, apenas que ainda não as temos): livros também são feitos para amar e colecionar – o que fazer com as estantes empoeiradas que atravancam espaço, mas que são motivos de orgulho para quem as cultiva? Como encontrar um livro, do qual não sabemos nem o nome nem o autor, mas guardamos a lembrança de forma, tamanho e cor? E como ficarão dos “ratos” de livraria? Aquelas pessoas que passam horas se deliciando com quilômetros de estantes ou pilhas intermináveis em sebos abarrotados?

Ambientalmente correto, em época de crise climática, essa máquina de ler pode facilitar a vida de quem estuda e precisa lidar com uma infinidade de títulos – com os quais nem sempre tem afinidade e, portanto, por que iria querer guardás-lo? -, os quais precisa encontrar e ler em prazos reduzidos. Muitos falam nos perigos da pirataria eletrônica, mas, convenhamos, quem já viu um xérox sabe que essa não é exatamente uma novidade na área editorial.

Kindle da Amazon é capaz de armazenar 1.500 arquivos digitalizados e pesa somente 290g.

Por outro lado, tudo o que depende de energia dá uma certa insegurança. Livros podem ser queimados, molhados, rasgados, mas com um pouco de cuidado, podem sobreviver por milênios. Já uma bateria fraca pode interromper o deleite de saber o final de um romance eletrizante que se está lendo na beira do mar. Ou acabar com uma das únicas alternativas que temos em um dia de chuva quando acaba a luz.

Artigo do colunista Luís Antônio Giron, no site da Época, no último dia 12 de outubro, “O kindle e a fome de ler – Como o e-reader tira a iniciativa do leitor e o transforma em mascote virtual”, destrincha muitos desses prós e contras e os comentários que gerou trazem todos os questionamentos comuns ao novo. Suas conseqüências reais, porém, só o tempo dirá: o rádio sobreviveu muitíssimo bem à TV, por outro lado, ninguém que tenha eletricidade à disposição prefere a luz de velas (a não ser que queira um ambiente romântico…). O futuro do livro impresso como o conhecemos hoje ainda está para ser escrito. Os únicos que, com certeza, perderão espaço são as traças e os cupins.

Maura Campanili e Moysés Simantob