A Natureza Coletiva das Idéias

por Moysés Simantob

Em muitos livros, os agradecimentos às contribuições dos colegas que ajudaram a construir uma obra são tão extensos e, em alguns casos, tão enfadonhos, que grande parte das pessoas com quem converso prefere começar já direto pelo primeiro capítulo.

Há, contudo, um texto de agradecimento que me chamou a atenção pelo primor da escrita e pela sensatez do argumento, na questão da autoria. Reproduzo-o entre aspas, abaixo:

“Restou-nos, assim, o problema da autoria. O que vem a ser autoria quando tantas vozes se fazem presentes? Quando fazemos interlocução com tantos autores? Quem somos, o que fizemos? Talvez tudo o que podemos fazer é concordar com Dom Toríbio de Cáceres y Virtudes, personagem do conto de Gabriel Garcia Marquez, Do amor e outros demônios. Conversam ele e o marquês de Casalduero, quando foram surpreendidos pelas badaladas das cinco.

- É horrível – disse o bispo. – Cada hora me ressoa nas entranhas como um tremor de terra.

A frase surpreendeu o marquês, pois era o mesmo que ele pensara quando soaram as quatro. Ao bispo aquilo pareceu uma coincidência natural.

- As idéias não são de ninguém – disse. Com o indicador, desenhou no ar uma série de círculos contínuos, e concluiu:

-Andam voando por aí, como os anjos.

Quiçá, como herdeiros de Bakhtin, não poderia ser de outra forma! Mas vivendo em outras épocas, coloca-se, sim, a necessidade de contabilizar esforços. Trata-se de reconhecer as contribuições e o tempo despendido e de aceitar a responsabilidade pelas idéias formuladas no conjunto dos textos desta coletânea. Acatar a natureza coletiva das idéias não elimina a responsabilidade de cada um por fazê-las circular. Assumo eu, portanto, a responsabilidade pela organização desta coletânea. Deixo público meu reconhecimento pelo empenho e investimento de dois dos meus colaboradores mais próximos – Benedito Medrado e Vera Menegon. Agradeço, ainda, a cuidadosa revisão dos textos feita por Teresa Cecília de Oliveira Ramos, Maria Helena de Carvalho e Rita de Cássia Q. Gorgati.”

SPINK, Mary Jane. Práticas discursivas e produção de sentidos no cotidiano – Aproximações teóricas e metodológicas. 3.ed. – São Paulo: Cortez, 2004. p.12 e 13

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